sábado, 30 de abril de 2011

FLICTS
(por Ziraldo)

Era uma vez uma cor muito rara e
muito triste
que se chamava FLICTS

Não tinha a força do vermelho
Não tinha a imensa luz do amarelo
Nem a paz que tem o azul
Era apenas o frágil e feio e aflito FLICTS

Tudo no mundo tem cor
Tudo no mundo é azul cor-de-rosa ou furta cor
é vermelho ou amarelo quase tudo
tem seu tom roxo violeta ou lilás
Mas não existe nada no mundo que seja FLICTS
-nem a sua solidão-

FLICTS nunca teve par um lugarzinho num espaço bicolor
(e tricolor muito menos pois três sempre foi demais)
Não existe no mundo nada que seja "FLICTS"

Na escola a caixa de lápis de cor de colorir paisagem
casinha e cerca e telhado árvore e flor e caminho
laço e ciranda e fita não tem lugar para flicts
Quando volta a primavera o parque todo e o jardim
todo se cobrem
de cores nenhuma cor ou ninguém quer
brincar com o pobre FLICTS


Um dia ele viu no céu depois da chuva cinzenta a turma
toda feliz saindo para o recreio e se chegou para brincar:

"Deixa eu ficar na berlinda? Deixa eu ser o cavalinho?
Deixa eu ser o cabra-cega? Deixa eu ficar no pique?"
Mas ninguém olhou para ele
só disseram frases curtas cada um por sua vez:

"Sete é um número tão bonito" Disse o Vermelho
"Não tem lugar para você" Disse o laranja
"Vai procurar um espelho" Disse o amarelo
"Somos uma grande família" Disse o verde
"Temos um nome a zelar " Disse o Azul
"Não quebre uma tradição" Disse o azul-anil
"por favor não vá querer quebrar a ordem natural das coisas"
Disse violento o violeta

E as sete cores se deram as mãos e á roda voltaram

e voltaram a girar e mais uma vez deixaram o frágil e
feio e aflito FLICTS na sua branca solidão
Mas FLICTS não se emendava (e por que se emendar?) não era
bom ser tão só e um dia foi procurar um trabalho para fazer:
"Será que eu não posso ter um cantinho ou uma faixa em
um escudo
ou em brasão em bandeira ou estandarte?"

"Não há vagas" Falou o Azul
“Não há vagas" Sussurou o branco
“Não há vagas” berrou o vermelho

Mas existem mil bandeiras trabalhando para tanta cor
e FLICTS correu o mundo em busca de seu lugar
e FLICTS correu o mundo: Pelos paises mais jovens pelas
terras
mais distantes pelas terras mais antigas pelos paises
mais bonitos
, mas nem mesmo as terras mais jovens as
bandeiras mais novas
e as bandeiras todas que ainda vão
ser criadas se lembraram de
flicts ou pensaram em FLICTS
para ser a sua cor
não tinham para ele uma estrela uma
faixa uma inscrição.


Nada no mundo é "FLICTS" ou pelo menos quer ser
o céu por exemplo é azul
é todo do azul o mar
"mas quem sabe o mar quem sabe?" pensa FLICTS agitado
O mar é tão inconstante
é cinzento se o dia é cinzento como um imenso lago de
chumbo
e muda com o sol ou a chuva Negro salgado
ou vermelho


O mar é tão inconstante tem tantas cores o mar

Mas para o pobre do FLICTS suas cores não dão lugar
E o pobre FLICTS procura alguém para ser seu par um
companheiro um amigo um irmão completar em cada
praça
e jardim em cada rua e esquina:

"Eu posso ser seu amigo?"
"Não" avisa o vermelho "
espera" o amarelo diz
"Vai embora" manda o verde
e mais uma vez sozinho o pobre FLICTS se vai

UM DIA FLICTS PAROU
e parou de procurar
olhou para longe bem longe e foi subindo subindo
e foi ficando tão longe e foi subindo e sumindo
e foi sumindo sumindo sumiu

Sumiu que o olhar mais agudo não podia adivinhar
para onde tinha ido para onde tinha fugido
em que lugar se escondia o frágil e feio e aflito FLICTS

E hoje com o dia claro mesmo com o sol muito alto
quando
a lua vem de dia brigar com o brilho do sol a lua é azul


Quando a lua aparece nos fins das tardes de outono

do outro lado do mar como uma bola de fogo ela
é redonda e vermelha

E nas noites muito claras quando a noite é toda dela
a lua é de prata e ouro enorme bola amarela

MAS NINGUEM SABE A VERDADE
(a não ser os astronautas)
que bem de perto de pertinho a lua é FLICTS!
Charlie Brown